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Choram Moniques e Clarices


25 de abril de 2022.

Era noite.

Na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, Jonatan Ribeiro de Almeida foi morto com um tiro de fuzil, disparado por um dos policiais que ocupam a comunidade onde moram cerca de 80 000 pessoas. Não houve confronto. Jonatan tinha 18 anos e um filho de quatro meses. Era negro, como a maior parte dos moradores do Jacarezinho. “Executaram meu filho e foram embora. Largaram ele no chão como se fosse um porco, como se ele não tivesse família.” Quem diz isso é Monique Ribeiro, mãe de Jonatan.

Numa rua do bairro do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo, Renan Silva Loureiro acompanhava a namorada até a casa de um parente. Os dois foram abordados por um motoqueiro disfarçado de entregador de comida. Era um assaltante. Queria os celulares do casal. Com uma arma na mão, fez Renan ajoelhar na calçada enquanto ia em direção da namorada do rapaz. Renan aparentemente foi defendê-la. Foi alvejado na cabeça. O assaltante ainda teve a frieza de tomar o celular da moça e pedir “desculpas”. Renan tinha 20 anos. Era branco, membro de uma família de classe média. “Dói ver a cena dele ajoelhado, pedindo para não ser morto.” Quem fala é Clarice Silva, mãe de Renan.

As mortes brutais de Jonatan e Renan – assassinados na mesma noite, nas duas maiores cidades do Brasil – foram testemunhadas (no caso de Renan, gravada por uma câmera de segurança). Em qualquer lugar minimamente civilizado teriam provocado muito mais do que coberturas jornalísticas e comentários indignados. Teriam potencial para provocar manifestações como as que pediram justiça para George Floyd. Em 2020, Floyd, um americano negro, foi sufocado foi um policial branco quando já estava rendido. O caso despertou uma série de protestos nas ruas e nas redes sociais, inclusive no Brasil, onde pessoas e empresas aderiram ao slogan Vidas Negras Importam.

O fato é que não houve passeatas ou movimentos na web pedindo justiça para Jonatan e Renan, garotos que levavam vidas diferentes, que nunca se encontraram, mas cujas mortes vão reforçar as estatísticas de jovens brasileiros vítimas da violência – seja ela institucionalizada ou não. Segundo o Atlas da Violência 2021, estudo realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), mais de 333 000 jovens de 15 a 29 anos foram vítimas de homicídio no Brasil. A cada 17 minutos, um jovem é assassinado no país.

É uma tragédia. E é um absurdo que nós, brasileiros, vejamos Jonatan e Renan como mais números nessa estatística. Eles eram pessoas com um futuro. Tinham família. Tinham mães – Monique e Clarice, mulheres como eu e você.

Em outubro, escolheremos quem vai governar o país nos próximos quatro anos: presidente, governadores, senadores, deputados. Essas pessoas não podem tudo, mas podem muito e funcionam, quase sempre, na base da pressão e da mobilização da sociedade. Se acharem banais as mortes de Jonatan e Renan, veremos a repetição e o aprofundamento da tragédia. Se acreditarem que violência se combate com bala na cabeça, cavaremos mais o poço onde estamos enfiados. Na hora de votar, pensem em Monique e Clarice.

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